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Dez anos da tragédia de Mariana: como Anchieta enfrentou sua maior crise econômica e renasceu das cinzas

Cidades

Há exatos dez anos, o Brasil acompanhava, estarrecido, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). A enxurrada de lama e rejeitos de mineração destruiu comunidades inteiras, matou 19 pessoas e provocou o maior desastre socioambiental da história do país.

O que poucos imaginavam, porém, é que os reflexos dessa tragédia se estenderiam até o litoral sul do Espírito Santo, mergulhando a cidade de Anchieta em sua pior crise econômica.


A lama que chegou sem tocar o mar

Anchieta não foi coberta pela lama, mas foi profundamente atingida pela paralisação da Samarco, empresa responsável pela barragem e principal motor econômico do município.
Antes do rompimento, a mineradora respondia por mais de 70% do PIB local. Suas operações garantiam emprego, renda e arrecadação. Com a suspensão das atividades, veio o colapso.

De um ano para o outro, o PIB de Anchieta despencou 73,7%, a maior retração já registrada entre todos os municípios capixabas.

“Foi como se a cidade tivesse parado no tempo. O comércio fechava as portas, as famílias deixavam o município, e a prefeitura perdeu metade de sua receita”, relembra um ex-secretário municipal da época.


O desafio de governar em meio ao caos

Eleito em meio à turbulência, o então prefeito Fabrício Petri assumiu a missão de salvar a cidade do colapso financeiro.

“Anchieta viveu a maior crise de sua história. Mas mesmo na dificuldade, decidimos olhar para frente e reconstruir”, declarou Petri em entrevista à época.

Sem alternativas imediatas, a prefeitura iniciou um plano de ajuste fiscal severo:

  • Reduziu 42% dos cargos comissionados, economizando cerca de R$ 1 milhão por mês.
  • Enxugou contratos e alugueis de imóveis públicos.
  • Reorganizou secretarias e serviços essenciais para manter a cidade funcionando.

Essas medidas evitaram que Anchieta entrasse em colapso institucional. “Era preciso garantir o básico: pagar os servidores, manter a saúde e a educação em pé”, disse Petri anos depois.


Reconhecimento e luta por reparação

Paralelamente, o prefeito liderou uma batalha política e jurídica para que Anchieta fosse reconhecida como município atingido pela tragédia da Samarco.

A inclusão oficial só veio anos depois, abrindo caminho para reparações e ações da Fundação Renova.

Com isso, foi criada a Comissão Anchietense de Acompanhamento das Ações Relacionadas à Fundação Renova (COARR), responsável por negociar compensações e monitorar projetos voltados à recuperação socioeconômica.

“Não fomos atingidos pela lama, mas sim pelo desemprego, pela queda brutal de arrecadação e pela perda de perspectiva. Isso também é um impacto direto do desastre”, afirmou Petri à época.


Da austeridade ao empreendedorismo

Após conter a sangria financeira, a gestão decidiu virar a página apostando na diversificação da economia.

Nascia o programa Anchieta Criativa e Empreendedora, que incentivou pequenos negócios, qualificou trabalhadores e apoiou o turismo local.

O resultado veio anos depois: em 2024, o projeto garantiu a Fabrício Petri o Prêmio Nacional Prefeito Empreendedor, do Sebrae, na categoria “Políticas Públicas para o Desenvolvimento de Pequenos Negócios”.

Foi a virada de chave. De uma cidade dependente de uma única empresa, Anchieta passou a acreditar na força do empreendedor local.


Cicatrizes que ainda doem

Mesmo com avanços, os efeitos do desastre ainda são sentidos.

Segundo dados recentes, municípios capixabas continuam enfrentando desafios ambientais e socioeconômicos decorrentes do rompimento da barragem.

Em Anchieta, a arrecadação ainda não atingiu os níveis anteriores a 2015, e parte da população convive com a instabilidade gerada pela dependência da indústria pesada.

“A tragédia de Mariana nos ensinou que não existe desenvolvimento sem responsabilidade ambiental e social. Hoje, buscamos um modelo mais equilibrado e sustentável”, afirmou Petri, na época.


Dez anos depois: a lição de Anchieta

A tragédia de Mariana deixou marcas profundas no Rio Doce, em Minas e no Espírito Santo. Mas também revelou exemplos de resiliência e reinvenção. Anchieta é um deles.

A cidade que um dia viveu à sombra da mineração precisou aprender a andar com as próprias pernas. E sob a liderança de Fabrício Petri, transformou uma crise histórica em um processo de reconstrução — ainda inacabado, mas já com sinais de esperança.

Anchieta sobreviveu. E agora, com os pés no chão, começa a sonhar de novo.


Linha do tempo – Dez anos de reconstrução

  • 2015: Rompimento da Barragem de Fundão em Mariana (MG).
  • 2016: Samarco paralisa operações; Anchieta registra queda de 73,7% no PIB.
  • 2017: Início da gestão de Fabrício Petri e pacote de austeridade.
  • 2018: Criação da COARR e articulação com a Fundação Renova.
  • 2020: Anchieta é oficialmente reconhecida como município atingido.
  • 2024: Petri vence o Prêmio Nacional Prefeito Empreendedor.
  • 2025: Dez anos depois, Anchieta busca consolidar nova matriz econômica.

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