Show da Banda Eva em Vitória vira showmício em pré-campanha de Pazolini e reacende debate sobre uso da máquina pública

Política

O show da Banda Eva realizado no último dia 25 de janeiro, na Arena de Verão 2026, na Praia de Camburi, em Vitória (ES), custeado integralmente pela Prefeitura de Vitória e com entrada gratuita, ultrapassou os limites de um evento cultural e assumiu contornos claros de showmício, prática proibida pela legislação eleitoral brasileira há mais de duas décadas.

Durante a apresentação, o vocalista da Banda Eva abraçou o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), e, em meio à empolgação do público, gritou repetidas vezes “governador, governador”, em alusão direta à pré-candidatura de Pazolini ao Governo do Espírito Santo. Em resposta, o prefeito pulou, vibrou e celebrou, confirmando com gestos e entusiasmo o coro político puxado do palco.

A cena, registrada por celulares e amplamente compartilhada nas redes sociais, escancara uma situação delicada: um evento promovido e pago com recursos públicos sendo utilizado como palanque político, em plena fase de pré-campanha eleitoral.

Proibição clara na Lei Eleitoral

A Lei nº 9.504/1997, que rege as eleições no Brasil, proíbe expressamente a realização de showmícios e a participação de artistas em eventos com finalidade eleitoral, justamente para evitar o uso do poder econômico e da popularidade artística para influenciar o eleitorado. Essa vedação vigora há mais de 20 anos e é amplamente conhecida no meio político.

Embora o evento tenha sido oficialmente classificado como cultural, o conteúdo político explícito, a exaltação pública do prefeito como candidato e sua reação entusiasmada no palco descaracterizam qualquer tentativa de neutralidade institucional.

Uso da máquina pública sob questionamento

O fato de o evento ter sido organizado e promovido diretamente pela Prefeitura de Vitória agrava ainda mais a situação. Recursos públicos, estrutura institucional, palco, som, iluminação e logística foram colocados a serviço de um espetáculo que, na prática, beneficiou politicamente um agente público em pré-campanha.

Especialistas em direito eleitoral apontam que não é necessário pedido explícito de voto para configurar irregularidade. A promoção pessoal, a associação direta do gestor a um projeto eleitoral e o engajamento do público em torno de um slogan político já são suficientes para caracterizar abuso de poder político e econômico, passível de questionamento pelos órgãos de controle.

Silêncio oficial

Até o momento, não houve manifestação oficial da Prefeitura de Vitória nem do prefeito Lorenzo Pazolini sobre o episódio. Também não houve esclarecimentos sobre orientações prévias aos artistas ou limites impostos ao conteúdo do show, algo esperado em eventos públicos em ano pré-eleitoral.

O caso reacende um debate fundamental para a democracia: eventos culturais financiados com dinheiro público não podem servir de trampolim eleitoral. Quando isso ocorre, quem paga a conta é o contribuinte — e quem perde é a lisura do processo democrático.

O episódio da Banda Eva em Vitória não foi apenas um show de verão. Para muitos, foi um alerta vermelho sobre a instrumentalização da cultura e do entretenimento em favor de projetos de poder, à margem da lei e do espírito republicano.

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