A tão comentada busca do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, por um partido para chamar de seu — e com ele pavimentar o caminho rumo à disputa pelo governo do Espírito Santo em 2026 — finalmente terminou. Depois de meses de indefinição, ele conseguiu não apenas se filiar ao PSDB, como também assumir a presidência estadual da sigla. Mas o movimento que deveria reforçar seu protagonismo político acabou gerando exatamente o oposto: isolamento, desgaste e um dos maiores rachas recentes do partido no Estado.
Imposição sem diálogo e ruptura no grupo de Casagrande
A insatisfação dentro do PSDB começou no momento em que a decisão foi anunciada. Segundo filiados e lideranças que passaram a se desligar da legenda, faltou diálogo, transparência e respeito à base. A chegada de Arnaldinho foi vista como uma imposição vertical, sem construção coletiva, gerando desconforto principalmente no campo político alinhado ao governador Renato Casagrande (PSB).
Dentro desse grupo, o nome tido como natural para a sucessão de Casagrande é o do vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), hoje praticamente unanimidade e apoiado pela maior parte dos prefeitos e lideranças estaduais. No PSDB, segundo relatos, a preferência também sempre foi por Ferraço — não por Arnaldinho. A reação imediata à nova presidência tucana comprova isso.
Debandada sem precedentes
Se Arnaldinho buscava um partido para chamar de seu, conseguiu. Mas ao custo de perder todo o resto.
Em ato coordenado, todos os prefeitos e vice-prefeitos eleitos pelo PSDB em 2024 decidiram deixar a sigla. Nesta terça-feira (09), eles se reuniram com os deputados estaduais Vandinho Leite e Mazinho dos Anjos, que também optaram por sair do partido.
Prefeitos que anunciaram saída
- Doutor Lúcio — Mantenópolis
- Joadir Lourenço — Laranja da Terra
- Kleber Medici — Santa Teresa
- Marcos Guerra — São Roque do Canaã
Vice-prefeitos que também deixarão a legenda
- Maurício do Hospital — São José do Calçado
- Professora Kaydman — Alegre
- Zé Marcos — Muqui
- Marcão — Bom Jesus do Norte
- Cleber Bianchi — Alfredo Chaves
- Glauber Tonon — João Neiva
As cartas de desfiliação serão entregues em bloco à Justiça Eleitoral — uma resposta política contundente à nova direção.
Fontes internas afirmam que ninguém saiu atirando contra Arnaldinho pessoalmente; a queixa foi sobre o processo. “Pegou todo mundo de surpresa”, disse um dos integrantes. Outro resumiu: “A maneira como tudo aconteceu não foi bacana”.
O que se vê é um partido que, antes mesmo de ser reorganizado, perdeu praticamente todo seu patrimônio político municipal, incluindo quatro prefeituras que juntas somam cerca de 75 mil habitantes.
Discurso de união contrasta com cenário real
Em evento empresarial em Vila Velha, Arnaldinho afirmou ter conversado com as lideranças da legenda e disse esperar uma resposta. Declarou ainda que pretende fazer do PSDB um partido que “ouve a todos” e que seu plano é reorganizá-lo para 2026, 2028 e além.
As declarações, porém, contrastam com a movimentação de prefeitos, vices e deputados — que não apenas não se sentiram ouvidos, como decidiram abandonar o barco antes mesmo de iniciar a travessia.
Nos bastidores, a saída coletiva fortalece a aproximação de lideranças como Vandinho e Mazinho com o MDB, enquanto prefeitos decidirão seus próximos rumos considerando o contexto local.
Conclusão: um partido para chamar de seu — mas só para ele
A entrada de Arnaldinho no PSDB deveria lhe dar musculatura política. Em vez disso, provocou:
- racha interno,
- descontentamento generalizado,
- ruptura com aliados naturais,
- esvaziamento da base municipal,
- isolamento político precoce.
O resultado é um PSDB quase dizimado, reduzido a uma estrutura que, neste momento, parece existir apenas para acomodar o próprio projeto pessoal de Arnaldinho.
Para quem buscava um partido para chamar de seu, o prefeito de Vila Velha de fato conseguiu. Mas, ao que tudo indica, será um partido solitário, sem quadros fortes, sem prefeitos, sem vices e sem a base necessária para sustentar uma pré-candidatura robusta ao governo estadual.
Se articulação política é a chave para voos maiores, os últimos movimentos mostram que este ainda é um campo em que Arnaldinho não encontrou o tom — e o caminho, por ora, aponta para andar sozinho.






